23 de novembro de 2009

Buscas

A leitura dos romances baratos de banca causou um estrago grande. Fiquei encerrada em um calabouço a ler os enredos onde o amor platônico triunfava sobre todas as coisas (entre elas a desconfiança, a adversidade, a incerteza) e nos quais o fim invariavelmente chegava quando o protagonista masculino dizia finalmente "Eu te amo" e, como num passe de mágica, tudo ficava azul e límpido com o desfecho de narrativas cujos títulos eram "Canção do mar", "Noite encantada", "Amor, o pacto quebrado", "Outono de ternura","Passaporte para o amor", "Delírios ao luar" dentre outras.

Incrivelmente tais narrativas me alimentaram durante oito anos ao longo dos quais lia e relia incansavelmente todas elas. E assim passei da puberdade ao final da adolescência cronológica. O ingresso na universidade não modificou muita coisa. Continuava virgem, com poucos amigos, fechada, receosa. Condenava os relacionamentos infindáveis, buscava um simples namoro em danceterias e não compreendia o motivo de tanta rejeição, tanta solidão enquanto a maioria das garotas tinham vários pretendentes disponíveis como a minha prima da qual me vinguei literariamente.

Angelo foi uma fuga e embarquei para Santa Clara da Campanha para escapar de uma situação insuportável no meu ambiente familiar, foi um equívoco afetivo dentre os muitos vividos até agora. As adversidades e distâncias encerraram a fuga e o período de luto foi longo e recorrente, só quebrado pela conclusão da dissertação e a chegada de Lúcio na minha vida. Um segundo relacionamento à distância também permeado por adversidade, ardis, mentiras, rupturas, sofrimentos e impasses. Novamente decepção e o luto foi tão longo e doloroso quanto o anterior. Viera o esquecimento, uma nova jornada de estudos e todavia sua vida permanecia truncada como um todo. É possível que tal truncamento fosse visível para todas pessoas menos para mim. E não compreendo. Não entendo o porque de tamanha letargia comigo mesmo, com a minha vida profissional, com a minha vida afetiva. Assim como não compreendo o porque de tanto desencontro, incompreensão e novas rejeições no momento em que pretendia reabrir-me, recomeçar, tentar o desabrochar de um novo sentimento. E ruminando a dor, me pergunto o motivo de um comportamento tão estranhamente retraído e frágil para uma pessoa que enfrentou tantas situações dificultosas e se sente tão derrotadamente sozinha e inadequada na vida, no mundo.

21 de novembro de 2009

O churrasco

Chovia...e ali estávamos...como personagens da repartição dos pães mas a conversar. Acabei montando uma mesa extra à toa, os homens ficaram à volta da churrasqueira e as mulheres à mesa. Eu estava sendo testada todo o tempo e aquilo era cansativo. Tive uma afinidade natural com a filha de dois anos de uma das mulheres e isso me valera a suposta aprovação da mãe. Eram irmãs, eu estrangeira. Até quando viveria essa condição? Estrangeira na cidade, na universidade, na família, na família dos outros, nas relações humanas. Era uma sensação consoladora mas desconcertante. Consoladora por me dar uma identidade singular. Desconcertante por não encontrar um lugar em espaço nenhum e quase ser de parte nenhuma. Pelo menos no universo do senso comum eu me sentia totalmente à margem. Aliás, com relação ao universo particular daquelas pessoas, eu estava verdadeiramente à margem. Mas a condição estrangeira me dava a oportunidade de análise e de reflexão, ô par raro.

As irmãs viviam em guerra com a balança e a vida. Cabelos tingidos, narizes proeminentes, unhas bem feitas, olhar medidor. Não eram ortodoxos, o traço cultural árabe sobrevivia no modo de encarar o mundo e as pessoas. E eu com a minha fleuma britânica só a observar e pensar. A mais velha tinha mais pose, era jornalista, evangélica, mãe e com um discurso destrambelhado dos que falam sem parar. A mais nova era um pouco retraída, também mãe, tentava ser simpática mas havia um descontentamento tamanho em seu olhar que a tornava um ser triste e apático, sem muito a dizer. Fizera a cirurgia do estômago, emagrecera quarenta quilos e a compulsão permanecia como uma sombra na relação com a comida e a vida - “perdi meu primeiro casamento pelo uso prolongado das anfetaminas”. Uma confissão lamentável essa. Pelo visto foram anos e anos de neuroses crônicas. A mais velha tentava emagrecer e estava a passar mal com a comida e as sobremesas pelo uso das fórmulas. A mais nova revelava um tédio típico das donas de casa enfaradas e apreensivas com o desemprego recente do marido.

Achei-a muito triste e perdida. Assim como o seu irmão. Era incrível como o equilíbrio mantido no trabalho era apenas uma fachada profissional. Internamente eu só enxergava frangalhos, angústias, caos, confusão, fugas, pequenezas, rancores. Não era compulsivo e sim ansioso, neurótico, no limite de um transtorno mais sério. Extremamente preocupado com aparências e ostentações. Dava importâncias a coisas irrelevantes, como uma coberta jogada ou um prato sujo. Tinha “sonhos” que o tornavam tão imaturo quanto um garoto de 17 anos. E eu ali? A estrangeira, a pesquisadora, a sublimadora.

A casa recebia o visitante com uma discreta lufada fria. Na porta eu sempre a sentia ao entrar. Não podia esquecer o choque e o estranhamento que o espaço me provocara. Quase um mausoléu. O lugar menos frio era o sótão com o teto de madeira inclinado e água-furtada abandonada como um escritório que não deu certo. De tudo era o único local cobiçado - pela janela pequena e mesa adequada para o estudo e a leitura. Apesar das estantes envidraçadas de madeira superior, os livros eram poucos. Alguns relativos ao exercício profissional, revistas afins mas insuficientes. Entre eles “Amar pode dar certo” e “Mulheres certas que amam homens errados”, este último nem parecia ter sido aberto ou lido.

O tapete afundava os pés, os móveis eram caros, os utensílios de cozinha, inúmeros e supérfluos. Para quem viveu uma pobreza franciscana nesse sentido me parecia excessivo. Eu sobrevivia com pouco, milhões sobreviviam com menos do que eu. As minhas neuroses não eram tão engessadas e sérias, embora fossem importantes também. Eu não ambicionava ostentar uma casa coberta de marmorarias onde o chão resplandecia. Preferia a madeira, os tacos, a simplicidade. Ambicionava um apartamento médio que abrigasse a mim e meus livros com algum conforto, o suficiente para me trazer tranqüilidade e independência. Eu continuaria a buscar o conhecimento e a transmiti-lo.

Nesse sentido, éramos totalmente opostos. A mentalidade classe média me aborrecia. Propriedade na praia, carros, casa de campo, carros importados, viagens excursionadas a locais fabricados para os turistas endinheirados. Tudo isso aborrecia a quem havia pegado a estrada rumo a paisagens mais verdadeiras e distantes tantas vezes. Conhecer Gramado não é conhecer o Rio Grande do Sul, nem Fernando de Noronha é conhecer um país complexo como o Brasil. Essa superficialidade me entristecia, as pequenezas me entristeciam, as diferenças me pareciam quase abismais. Não que eu não pudesse conviver nessa classe: eu posso. Mas a pobreza de espírito me parece o obstáculo maior e mais difícil de ajustar. Não tenho ilusões, não quero nem posso modificar os pensamentos do homem. Eles já estão por demais cristalizados.

Quando vi a bíblia decorativa aberta justamente no livro do Eclesiastes, achei oportuno. A sabedoria do rei de Israel é algo ímpar no velho testamento assim como os cânticos dos cânticos. Vaidade das vaidades. Coma, beba e goza do que possa tirar do seu trabalho. De resto nada permanece, a vida passa, as aflições dos acúmulos não compensam. Nu veio e nu voltará. Disse para que lesse, seria interessante para o momento que estava a sofrer. Duvido que leia. Só se eu colocasse o livro nas mãos dele e dissesse pra ler na mesma hora. Compensaria? Não. Era essa a minha função docente? Na verdade eu imaginei que um médico tivesse uma mentalidade mais rica e aberta. Mas esbarrei em muitos muros. Muros afetivos, muros de in-compreensão, carência de entendimentos, carência cultural, carência de viver plena e verdadeiramente.

Eu ainda tinha um caminho a percorrer, a diferença de idade era grande só na conta bancária e na experiência profissional; de resto eu me sentia mais tranqüila, madura e feliz. Minha bagagem é leve, não preciso de advogados a carregá-la. Mas minha experiência “social” está um pouco além, o sofrimento fez de mim uma pessoa melhor. A chuva caía forte sobre a piscina, o jardim, a grama. Eu mastigava pouco, conversava um pouco mais, observava muito. Via a satisfação dele, a nos olhar de lá, feliz que eu estivesse a entreter as irmãs, embora elas não tivessem muito a me dizer. O problema é como se constrói um relacionamento. Era tudo muito convencional, chato. Do benhê ao churrasco, tive a impressão de que tal cena poderia se repetir muitas vezes. Isso é inquietante. A minha vida com ele seria isso? Hum, pouco satisfatório. O mundo ainda está a me esperar. Se o que ele poderia oferecer era só esse aspecto social, já sei que não seria suficiente. E não seria por saber que só isso não sustenta um relacionamento nem uma convivência conjugal realmente SATISFATÓRIA. E ele me parece ter uma forma distorcida de enxergar isso. Relacionamentos não são unilaterais nem uma só voz fala. Deve ter esbarrado nisso muitas vezes e ainda não compreendeu.

Não creio que a mãe da filha dele fosse tão má pessoa nem tão movida pelo interesse, ela agüentou por bastante tempo, teve a criança, isso me parece relevante e ademais eu não sei a sua versão dos fatos. Desconfio. Penso que com esse comportamento ele só vá atrair mais e mais pessoas superficiais e esvaziadas. Por minha vez, falei o que pensava. Já disse que pra mim seria indiferente o local de moradia dele, poderia ser no prédio onde moro, para mim daria na mesma. E penso se não seria melhor estar com alguém que seja simples como eu, sem tantos vícios de comportamento. Não poderia deixar de ser quem eu sou, já foi tão difícil construir isso. Lido com a frustração com criatividade, como estou a fazer agora. Vejo, escrevo, produzo. Dr.Jekyll tinha regrinhas demais e não suportava o Mr. Hyde que aparecia sempre.

18 de novembro de 2009

Chorume

Elisabete acordou com um certo sobressalto: era a hora do revezamento. Fazia isso todas as noites, tornara-se uma necessidade familiar. O filho bebê tinha dificuldades para dormir em seu próprio quartinho e, até mesmo, na cama do casal. Tocou o ombro do marido: era o momento dele descer da cama e ficar com o filho num colchão no chão. Ela subiu às tontas para mais algumas horas de sono. A convivência conjugal limitara-se a uma rotina desgastante de pai e mãe.

Estavam casados havia três anos após seis de namoro e um de noivado. O noivado dera-se em função de uma gravidez inesperada. Seu pai começara a reforma da casa para acomodar a filha, não estava nos planos de Elisabete mudar para o sobrado imenso onde o noivo morava com a mãe doente. Em todo o tempo de namoro, ele sempre cedera em tudo. Era um sujeito pacato, tranqüilo, de paz. Elisabete sempre fora esquentada, nervosa, braba, pavio curto embora escondesse tais características sob uma superfície de poucas palavras e aparente calmaria. Achava mais fácil fazer-se de sonsa, pelo menos para os pais, irmão, avó, tios e primos. A reforma e os preparativos para as bodas estavam em andamento quando ela tivera um aborto espontâneo no terceiro mês. Como o tempo era longo e as providências tomadas, uniram-se assim mesmo. O pai já estava cansado do noivo enfurnado em sua casa todos os finais de semana ao longo de um namoro infindável e resmungara que aquilo não poderia continuar. Como o tempo era longo, o casório parecia ser a única conseqüência.

A mãe de Elisabete fizera questão de seguir os protocolos e houve cerimônia, duas dúzias de padrinhos, recepção e valsa com direito a atos de mau gosto como cortar a gravata do noivo para arrecadar uns trocados. Aliás, ninguém na família de Elisabete conhecia os “bons modos”:a avó sujara o vestido de festa com a gordura dos espetinhos enquanto o primo e o irmão bêbados esvaziavam os copázios plásticos de chope e uma tia afetada pelo álcool levantava a saia. Ela e Alexandre estavam ocupados em sorrir, agradecer, posar para fotos e perguntar se todos estavam servidos.

Os barulhos da rua acordam Elisabete para mais um dia de trabalho. Levanta, vai à cozinha, abre a geladeira, despeja lentamente leite no copo e o completa com três colheres de sopa de Nescau Power. Era viciada em chocolate, fosse qual fosse sua forma e sempre tivera biscoitos recheados, bombons e barras no guarda-roupa. Corta um pão francês amanhecido e polvilha generosamente o achocolatado. O pão com nescau era um hábito que mantinha desde criança. Chocolate, arroz, carne vermelha e frituras eram a sua única alimentação. Não suportava nada além disso. Tamanha restrição talvez tivesse contribuído para o fato de não ter tido uma gota de leite sequer para amamentar o filho quando recém nascido. Falta de nutrientes? Ou mais provavelmente isso fosse o reflexo de uma grande ansiedade.

O filho já andava e ficava a maior parte do tempo com a mãe de Elisabete. Ela trabalhava como recepcionista numa empresa há oito anos. O marido trabalhava numa indústria próxima como operador de montagem automobilística. Conheceram-se numa casa noturna muito “mal freqüentada” por ficar próxima a um luxuoso bordel. Elisabete e a sua prima menor iam lá todos os finais de semana. Iam e voltavam de táxi. A prima era rechonchuda e sempre usava vestido e sapatos de salto. Elisabete era atlética, praticava ginástica aeróbica, body board e natação. Numa daquelas noites ambas conheceram Alexandre e um amigo. Alexandre era alto, forte, tinha belos cabelos escuros contrastando com uma pele clara e traços harmoniosos. Conversaram um pouco e logo ficaram juntos. A prima preferira um coroa charmoso ao amigo de Alexandre. E dessa forma iniciaram o namoro que não foi levado a sério por Elisabete durante quase um ano. Continuaram a sair juntas por mais um ano ao longo do qual o namoro tornara-se sério. Elisabete contava vinte e seis anos e cedera finalmente a virgindade a Alexandre ao se sentir suficientemente segura para isso. Está claro que ele tivera uma paciência indiana após enregelar noites a fio a esperá-la do lado de fora da casa, dentre outras coisas.

Antes de namorar “a sério”, Elisabete tivera uma vida muito dinâmica. Além de freqüentar academias e casas noturnas, viajava seguidamente e passeara pelas praias mais belas do litoral brasileiro, até as mais longínquas e rústicas. Com amigas excursionara para Cancun. Ela adorava praias e baladas e instalara um complexo de luzes coloridas dentro do próprio quarto para simular o ambiente dancing em casa. Saía muito, jogava vôlei e mantinha uma rotina saudável sem bebidas ou cigarros. Tinha muitos admiradores e orgulhava-se de sua coleção de cartões de ex-namorados, ficantes e candidatos. Mostrara a caixa um dia à prima mais nova antes de saírem. Pudera enxergar a tristeza e encabulamento dela: sofria rejeições constantemente por não ter a sua aparência atlética e se importar muito com os homens além de ansiar muito por um namoro e isso era evidente e explicava o sumiço de todos os rapazes que dela se aproximavam. Elisabete e a prima mais nova faziam parte de uma geração transitória, na qual ainda havia ranços de repressão e de educação católica. Ambas eram comportadas e virgens. Elisabete rompera seu hímen antes da prima de acordo com uma série de normas estabelecidas por ela mesma e obedecidas por Alexandre.

O quarto de Elisabete fora uma bagunça na solteirice e a casa não era diferente depois do casamento. O quartinho do filho tranformara-se em depósito de objetos não usados. A esteira ergométrica acumulava uma grossa camada de pó. As roupas lavadas e passadas amontoavam-se em cadeiras. A cama estava sempre desfeita pois Elisabete achava inútil arrumá-la para deitar novamente. A mãe cuidava do neto e mandava os pratos de comida à noite para ela e Alexandre. Elisabete não tinha vocação para tarefas domésticas e impacientava-se freqüentemente com o filho que era chorão e inquieto. Alexandre, ausente e calado assistia aos campeonatos da UEFA na televisão de 40 polegadas. Seus cabelos escuros tornaram-se grisalhos, perdera a postura forte, engordara e antes do casamento já ostentava uma aparência de cinqüentão embora fosse um ano mais jovem que Elisabete. A gravidez, o trabalho e a correria pós nascimento mudaram a rotina de Elisabete e ela parara com os exercícios. O chocolate, o stress e as doses de depo-provera fizeram-na perder a esbeltez de antes. Estava desleixada, as roupas foram para o baú e adotora definitivamente o moletom em casa. Os dias da semana eram sempre iguais e caóticos, o filho dava incômodos e trabalhos, a rotina sexual tornava-se mais e mais míngua. Alexandre jantava pratarrões de comida, os olhos fixos na televisão, mudo. Conhecia bem o gênio da esposa. O filho choramingava atrás de Elisabete que – agora sempre irritada – fritava batatas pré-prontas e congeladas.

Os gestos de Elisabete eram a cada dia mais ríspidos assim como os berros. As tias e avó estranhavam tamanho nervosismo. A mãe resignara-se a ser babá do neto e dar todas as noites os pratos de comida para o casal. O pai mantinha-se em neutralidade com os cães na parte inferior da casa. Alexandre não sabia pegar o filho ao colo e o menino preferia os avós. Os copos sujos e suas marcas estavam em todos os lugares. O banheiro fedia a mijo e uma crosta de sal cobria o vaso sanitário. Os raros visitantes não-familiares sentiam-se intrigados com a aparência caótica da residência. Elisabete sempre fora desleixada em assuntos domésticos, qual a surpresa? O marido casara consciente de que ela não seria uma rainha do lar nem cozinharia. O nervosismo de Elisabete traduzia – na verdade – uma latente insatisfação com a vida atual pós-casamento. E isso era bastante compreensível: como uma mulher que tinha a qualidade de vida anterior poderia sentir-se satisfeita com uma rotina e um relacionamento insípidos e desgastados onde só sobrara espaço para obrigações e problemas? Lembrara-se de estender a mão para a leitura da prima mais nova numa festa de família e perguntara-lhe se faria novas viagens. “Não vejo”. – respondera ela, que entendia um pouco de quiromancia. Elisabete entristecera levemente. Os tempos áureos haviam passado.

Tal insatisfação pulsava em suas têmporas, veias e coração embora ela não a tivesse ainda identificado claramente. A alienação doméstico-conjugal a imobilizava. Dirigia rápido pela avenida rumo ao trabalho. Trabalho-casa-trabalho. Era obrigada a sorrir para os clientes todos os dias, ser solícita serviçal, ser mãe, ser esposa, ser profissional. Era tudo muito cansativo, muito cansativo. Todos os dias eram os mesmos. O resto da família ria da passividade de Alexandre, de sua lentidão de boi manso. Era suportável aquilo? Ela sabia que não e enfiava o pé no acelerador. Sua educação repressora impedia-a de tomar um amante e ademais não se sentia minimamente atraente para tal coisa. A imagem do filho pesava na consciência. Era mais fácil permanecer e aceitar a sua sina. Lágrimas escorriam pelo rosto. Afastava-se da rota habitual, o carro a conduzia, chegaria atrasada na empresa. Uma angústia paralisadora a consumia. Por que não conseguia modificar a própria vida? Inúmeros fatores pareciam empatar-lhe as atitudes. Tinha coragem, sempre tivera. O que teria acontecido? Quem era essa Elisabete de hoje, fora de forma e de foco, sem vontade de ser mãe. Teria tido o filho para contentar a família, por fazer parte das convenções sociais que seguira religiosamente? O pânico começa a dominá-la e o braço direito a adormecer. O carro desliza pelo asfalto rumo a serra do mar. Mas para onde estou indo? O pé continua no acelerador embora a paralisia tomasse conta do corpo e do cérebro. Era medo, resistência, covardia...? Os protocolos enganavam e a família mesmo xucra tinha suas regras de comportamento. A paralisia vencia aos poucos. Ou seria resistência? Como é possível sentir satisfação se antes a qualidade era incomparável, ao menos gostava de si. Mas e agora? Mergulhara no stress e seu pior lado levava a melhor. As lágrimas continuam a escorrer no seu rosto vermelho. Por que, para que? Estava encalacrada, isso sim. Encalacrada pelas tarefas, repetições, exaustões, vampiros. Fecha os olhos. Muito medo. As quaresmeiras do acostamento desabrocham. A água estende-se embaixo, a linha do trem na serra oposta. Onde estavam os seus desejos? Um aperto no peito, cadeados invisíveis, prisões. Os pneus rangem em curvas irregulares, o motorista de trás grita “Cuidado, dona!” Elisabete abre os olhos. O vôo. Ela sente alívio e medo. Presa pelo cinto sente todos os solavancos da lataria pelo barranco. A dor. Seus olhos enxergam o céu azul e límpido.

Lâminas

Acordo às 5 e 24. Quando escrevi "Almas rasas", relatei uma situação que eu vivi na pele. Naquele momento sentia-me muito solitária e passados quatro anos, a solidão continua maior e mais intensa. Tão difícil suportar, tão duro superar a rejeição, o estar só. Esta semana será curta - mais um holiday pra aumentar a angústia. Gostaria de ter ao menos uma compensação, por pequena que fosse. Mas não tenho, não há. Estou com medo do que pode acontecer, de ser enganada e manipulada. Cansada dessa vida loser. Cansada fisicamente. Vejo que deprimi depois de um ano e 4 meses. Minha vida pessoal nunca esteve tão ruim, tão sem perspectiva e eu me sinto arrasada. Naquela época adoeci. Hoje recaí em alguns maus hábitos de antigamente e faltei às minhas aulas de apoio psicológico. A dança vem do coração, o meu está furado. As imagens completam as palavras.

16 de novembro de 2009

El madi

Como ele previra, o momento é de julgamento. O juízo acontece aqui mesmo, em diversos momentos da vida e o resto é literatura (seja da bíblia ou de Dante). Sinto uma tristeza profunda mas não chega a deprimir, apenas dilacera. Como K. disse hoje, o xis é a solidão, creio ser este o desencanto maior. Enquanto o telefone toca pra me ofercer planos de tv a cabo e velocidade maior da internet banda larga, a cabeça me dói, a coluna ameaça travar novamente. Saí da aula de francês na hora certa, o turbilhão me arrastara desde o final de setembro, um efeito dominó. Uma decepção colada à outra, não conseguiam me enxergar como ser humano tãopouco a minha fragilidade. Ao lado do pai naquele estabelecimento detestável, continha as lágrimas pois sabia que algo se perdera irremediavelmente nesses dias e a minha solidão se agigantava. No fim das contas, ambos seguiram o rumo de suas vidas e eu permaneci envolvida pelas lembranças, pelas carências de menina, pela dor. Tive ímpeto de abrir mão de tudo, fazer a roda girar de algum modo. Mas as atitudes dos outros me empurravam à frente, fosse como fosse. Colecionando decepções e machucados.

14 de novembro de 2009

Resíduo

"De tudo fica um pouco." Carlos Drummond de Andrade é um poeta com algumas chatices mas sempre algo é possível salvar. Fica um pouco. Fica um pouco do passado. Fica um pouco do rancor. Fica um pouco de ressentimento. Fica um pouco da lembrança do que foi bom. Fica um pouco da sensação de incapacidade. Fica um pouco da culpa. Fica um pouco do passado.

I. me parecera um homem calmo, equilibrado e sedutor. Há tempos não sentia tanta vontade de estar com um homem, esse tipo de atração, de magnetismo forte. Debati-me com as questões éticas por um mês, fiquei feliz ao descobrir que ele estava sozinho e com a possibilidade de um relacionamento. Mas as diferenças se mostraram grandes demais, as muralhas constituíram um obstáculo verdadeiro e ficamos reféns do medo. Medo de ser reprovada e repudiada, medo de ser envolvido e enganado. O processo doloroso da separação e seus desdobramentos transformara-o num homem extremamente tenso, desconfiado, ríspido, enfim, um frangalho emocional. Deixara-se endurecer de tal forma, a ponto de não conseguir mais enxergar nada que estivesse fora da sua área de conforto e familiaridade. O semblante era sério, os músculos faciais sempre tensos, lábios apertados. Raros momentos os olhos adquiriam uma luz quente de carinho e entrega. Isso que dói mais. As fotos emolduradas mostravam um outro homem. Os cabelos não eram grisalhos, a expressão do olhar era calma e límpida. Gostaria de tê-lo conhecido antes disso. Todavia a versão dos fatos não condizia muito com a versão dos autos. Não havia provas contra o comportamento indigno da mulher, conforme dissera. Ou as provas não haviam sido entregues ou não existiam e ele poderia ter mentido o tempo inteiro. Esse modo distorcido de enxergar as pessoas e coisas...esse alienamento só o tornavam mais só e isolado. Não acredito que haja muita solidariedade e senso de humanidade na classe alta embora isso independa de classe social. Mas I. parecia extremamente preocupado com a opinião pública para tentar me compreender. Vira somente mais um mulher, mais menina do que mulher. E assim rotulara-me. Eu até agora não entendo o meu próprio comportamento e porque estive mesmo tão retraída.

Lamento pela forma como tudo acabou, essa forma covarde de simplesmente fugir. Gostaria de continuar a conhecer o envolvimento afetivo, o sexo, construir uma relação limpa, verdadeira, leve, cúmplice fundamentada na confiança e no bem-estar juntos. Quero me conhecer e conhecer o outro, ir além do dois de copas ou prolongá-lo por mais tempo.

8 de novembro de 2009

Ele fala

A cada dia eu e ele estamos mais e mais unidos, quase uma só alma. Depois da consagração tornara-se ainda mais afiado, incisivo, claro. Havia me dito o que acontecia mas eu não entendera. A dama de paus, a mulher que vai até as últimas conseqüências, roda da fortuna (um passado que retorna), dez de espadas. Agora seis de copas, sete de paus. O passado, a briga, a competição, o sentimento prisioneiro. E eu continuarei ligada às coisas ocultas, a cultivar a habilidade de trazer à tona os sentimentos profundos das pessoas com as quais estabeleço algum tipo de relacionamento. É a marca da Rainha de Copas - um modelo de feminino ainda não completamente amadurecido - mas que consegue enxergar um pouco além da superfície. ************** Cansada de passagens, cansada de sofrer, mais um golpe na sua auto-estima, uma decepção a mais. ************** Uma tempestade grande a se aproximar, mais uma situação limite dentre as muitas já vividas. E uma tese inteira por escrever no caos.