Chovia...e ali estávamos...como personagens da repartição dos pães mas a conversar. Acabei montando uma mesa extra à toa, os homens ficaram à volta da churrasqueira e as mulheres à mesa. Eu estava sendo testada todo o tempo e aquilo era cansativo. Tive uma afinidade natural com a filha de dois anos de uma das mulheres e isso me valera a suposta aprovação da mãe. Eram irmãs, eu estrangeira. Até quando viveria essa condição? Estrangeira na cidade, na universidade, na família, na família dos outros, nas relações humanas. Era uma sensação consoladora mas desconcertante. Consoladora por me dar uma identidade singular. Desconcertante por não encontrar um lugar em espaço nenhum e quase ser de parte nenhuma. Pelo menos no universo do senso comum eu me sentia totalmente à margem. Aliás, com relação ao universo particular daquelas pessoas, eu estava verdadeiramente à margem. Mas a condição estrangeira me dava a oportunidade de análise e de reflexão, ô par raro.
As irmãs viviam em guerra com a balança e a vida. Cabelos tingidos, narizes proeminentes, unhas bem feitas, olhar medidor. Não eram ortodoxos, o traço cultural árabe sobrevivia no modo de encarar o mundo e as pessoas. E eu com a minha fleuma britânica só a observar e pensar. A mais velha tinha mais pose, era jornalista, evangélica, mãe e com um discurso destrambelhado dos que falam sem parar. A mais nova era um pouco retraída, também mãe, tentava ser simpática mas havia um descontentamento tamanho em seu olhar que a tornava um ser triste e apático, sem muito a dizer. Fizera a cirurgia do estômago, emagrecera quarenta quilos e a compulsão permanecia como uma sombra na relação com a comida e a vida - “perdi meu primeiro casamento pelo uso prolongado das anfetaminas”. Uma confissão lamentável essa. Pelo visto foram anos e anos de neuroses crônicas. A mais velha tentava emagrecer e estava a passar mal com a comida e as sobremesas pelo uso das fórmulas. A mais nova revelava um tédio típico das donas de casa enfaradas e apreensivas com o desemprego recente do marido.
Achei-a muito triste e perdida. Assim como o seu irmão. Era incrível como o equilíbrio mantido no trabalho era apenas uma fachada profissional. Internamente eu só enxergava frangalhos, angústias, caos, confusão, fugas, pequenezas, rancores. Não era compulsivo e sim ansioso, neurótico, no limite de um transtorno mais sério. Extremamente preocupado com aparências e ostentações. Dava importâncias a coisas irrelevantes, como uma coberta jogada ou um prato sujo. Tinha “sonhos” que o tornavam tão imaturo quanto um garoto de 17 anos. E eu ali? A estrangeira, a pesquisadora, a sublimadora.
A casa recebia o visitante com uma discreta lufada fria. Na porta eu sempre a sentia ao entrar. Não podia esquecer o choque e o estranhamento que o espaço me provocara. Quase um mausoléu. O lugar menos frio era o sótão com o teto de madeira inclinado e água-furtada abandonada como um escritório que não deu certo. De tudo era o único local cobiçado - pela janela pequena e mesa adequada para o estudo e a leitura. Apesar das estantes envidraçadas de madeira superior, os livros eram poucos. Alguns relativos ao exercício profissional, revistas afins mas insuficientes. Entre eles “Amar pode dar certo” e “Mulheres certas que amam homens errados”, este último nem parecia ter sido aberto ou lido.
O tapete afundava os pés, os móveis eram caros, os utensílios de cozinha, inúmeros e supérfluos. Para quem viveu uma pobreza franciscana nesse sentido me parecia excessivo. Eu sobrevivia com pouco, milhões sobreviviam com menos do que eu. As minhas neuroses não eram tão engessadas e sérias, embora fossem importantes também. Eu não ambicionava ostentar uma casa coberta de marmorarias onde o chão resplandecia. Preferia a madeira, os tacos, a simplicidade. Ambicionava um apartamento médio que abrigasse a mim e meus livros com algum conforto, o suficiente para me trazer tranqüilidade e independência. Eu continuaria a buscar o conhecimento e a transmiti-lo.
Nesse sentido, éramos totalmente opostos. A mentalidade classe média me aborrecia. Propriedade na praia, carros, casa de campo, carros importados, viagens excursionadas a locais fabricados para os turistas endinheirados. Tudo isso aborrecia a quem havia pegado a estrada rumo a paisagens mais verdadeiras e distantes tantas vezes. Conhecer Gramado não é conhecer o Rio Grande do Sul, nem Fernando de Noronha é conhecer um país complexo como o Brasil. Essa superficialidade me entristecia, as pequenezas me entristeciam, as diferenças me pareciam quase abismais. Não que eu não pudesse conviver nessa classe: eu posso. Mas a pobreza de espírito me parece o obstáculo maior e mais difícil de ajustar. Não tenho ilusões, não quero nem posso modificar os pensamentos do homem. Eles já estão por demais cristalizados.
Quando vi a bíblia decorativa aberta justamente no livro do Eclesiastes, achei oportuno. A sabedoria do rei de Israel é algo ímpar no velho testamento assim como os cânticos dos cânticos. Vaidade das vaidades. Coma, beba e goza do que possa tirar do seu trabalho. De resto nada permanece, a vida passa, as aflições dos acúmulos não compensam. Nu veio e nu voltará. Disse para que lesse, seria interessante para o momento que estava a sofrer. Duvido que leia. Só se eu colocasse o livro nas mãos dele e dissesse pra ler na mesma hora. Compensaria? Não. Era essa a minha função docente? Na verdade eu imaginei que um médico tivesse uma mentalidade mais rica e aberta. Mas esbarrei em muitos muros. Muros afetivos, muros de in-compreensão, carência de entendimentos, carência cultural, carência de viver plena e verdadeiramente.
Eu ainda tinha um caminho a percorrer, a diferença de idade era grande só na conta bancária e na experiência profissional; de resto eu me sentia mais tranqüila, madura e feliz. Minha bagagem é leve, não preciso de advogados a carregá-la. Mas minha experiência “social” está um pouco além, o sofrimento fez de mim uma pessoa melhor.
A chuva caía forte sobre a piscina, o jardim, a grama. Eu mastigava pouco, conversava um pouco mais, observava muito. Via a satisfação dele, a nos olhar de lá, feliz que eu estivesse a entreter as irmãs, embora elas não tivessem muito a me dizer. O problema é como se constrói um relacionamento. Era tudo muito convencional, chato. Do benhê ao churrasco, tive a impressão de que tal cena poderia se repetir muitas vezes. Isso é inquietante. A minha vida com ele seria isso? Hum, pouco satisfatório. O mundo ainda está a me esperar. Se o que ele poderia oferecer era só esse aspecto social, já sei que não seria suficiente. E não seria por saber que só isso não sustenta um relacionamento nem uma convivência conjugal realmente SATISFATÓRIA. E ele me parece ter uma forma distorcida de enxergar isso. Relacionamentos não são unilaterais nem uma só voz fala. Deve ter esbarrado nisso muitas vezes e ainda não compreendeu.
Não creio que a mãe da filha dele fosse tão má pessoa nem tão movida pelo interesse, ela agüentou por bastante tempo, teve a criança, isso me parece relevante e ademais eu não sei a sua versão dos fatos. Desconfio. Penso que com esse comportamento ele só vá atrair mais e mais pessoas superficiais e esvaziadas. Por minha vez, falei o que pensava. Já disse que pra mim seria indiferente o local de moradia dele, poderia ser no prédio onde moro, para mim daria na mesma. E penso se não seria melhor estar com alguém que seja simples como eu, sem tantos vícios de comportamento. Não poderia deixar de ser quem eu sou, já foi tão difícil construir isso. Lido com a frustração com criatividade, como estou a fazer agora. Vejo, escrevo, produzo. Dr.Jekyll tinha regrinhas demais e não suportava o Mr. Hyde que aparecia sempre.